É que as vezes, mesmo estando limpo, é preciso tomar um banho para se sentir purificado. Para esfriar a cabeça e imaginar como seria bom se os problemas saíssem juntos com toda impureza. Um banho que traz um conforto e uma sensação de que a alma está lavada. Quem nunca almejou isso não é? Mas o bom mesmo é dormir em paz, com a cabeça tranquila, sem dever nada a ninguém. Problemas são inevitáveis, todos têm. Todos vagam um pouco em seu subconsciente antes de dormir, imaginação nos leva a qualquer lugar, ou até mesmo lugares que criamos para idealizar uma vida perfeita. Uns vão, outros vem. Assim vai seguindo a rotina. Trabalho, estudos, compromissos, responsabilidades, diversão. Amizades antigas que se afastam, novas que chegam pra ficar. Dia e noite, noite e dia. Horas iguais, viagens, pessoas, animais, violência, desigualdade social. Tudo de ruim deixa de permanecer no nosso mundinho criado mentalmente e passa a existir só coisas boas. Seria algo perfeito. Esplêndido. Daí você acorda com uma distração e percebe que nada passa de um sonho. Sonho que na verdade não custa nada. Você percebe que mais do que imaginar, é erguer a cabeça e fazer sua parte. Fazer ao menos uma mera semelhança da realidade com seu mundo perfeito. É se fazer de guerreiro e nunca deixar de sonhar. Porque sonhar é uma dádiva perfeita e que ninguém pode rotular isso.
— O que foi?
— Não foi nada…
— Vai mentir pra mim agora?
— Olha… Eu não aguento ficar assim.
— Assim como?
— Assim… Eu não suporto a idéia de perder você. Quando você se afasta, eu enlouqueço. Eu sempre acho que você pode cansar e ir embora. E você sabe que eu não suportaria ver você indo embora. Você sabe que a ideia de não te ter mais aqui, me enlouquece. Me tira totalmente do sério. Porque… Eu quero estar com você. Mas eu simplesmente não consigo te fazer ficar.
É provável que um dia ela negue que tudo isso aconteceu, negue que foi bom ter acontecido, negue que foi importante, negue que algo mudou dentro da gente, daqui para o resto de nossos dias, a perder de vista. Mas estou lembrando de tudo isso agora, e que sei ela também está, aonde estiver. Mas não importa mais. Algumas pessoas apenas não nascem para ficar juntas, digo juntas-juntas, embora seus encontros físicos sejam bem românticos e inesquecíveis. Vai ver é isso que querem dizer quando dizem que tudo isso é um jogo. Se você foi derrotado, não faz sentido ficar depois assistindo as reprises dos melhores momentos. Só tope jogar se souber perder. E eu perdi. Nós perdemos. Para nós mesmos, ou seja, perdemos para quem a gente é.
A liberdade é feita pra doer, my dear, como as asas dos pássaros que migram do pólo norte para as praias cariocas em meses de verão. Eles devem gritar toda sentença e morrer lentamente porque não veem a benção das estações dilacerando a visão. Tenho tanto medo por você ser assim, tão leve e solto. Tão cheio de nada e com uma agonia que não lhe pertence, bem como teus calos que foram adquiridos com o tecer do tempo sobre a solidão daqueles que não são vistos por quem já soube ver.
A liberdade não é o ápice, clarice já dizia: liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome.
Tem gente que faz do mundo melhor lugar para se viver. Gente que é mansa, que cuida e repara na gente. Que olha de dentro para fora e não precisa de toque para atravessar nosso peito. Tem gente que vale à pena, vale muito, vale aquilo que o dinheiro não compra. Gente que não se vende, não se aluga, não passa de passagem. Passa e fica e, quando fica, nos prende. Gente que caminha de leve, faz com que os outros sorriam, planta amizade e ternura nas calçadas por onde anda. Que não precisa de beleza estampada na pele porque, de belo, basta o coração. Basta a doçura, a gentileza, o sorriso. Essa gente é que nos dá vontade de abraçar, de ter por perto. Dá vontade de guardar para sempre na estante e ter de enfeite. Porque é raro, Ô se é. É difícil de encontrar dando bobeira por aí, mas não é impossível. Geralmente estão sorrindo, ainda que o calo aperte. São aqueles dispostos a ajudar, a dar bom dia e agradecer. Aqueles que fazem poemas como presentes. Que mandam mensagens na calada da noite. Que sorriem com os olhos. São aqueles que nos dão a mão para nunca mais soltar, em hipótese alguma. Aqueles que dizem “lembrei de você”, que deixam recados nas beiras do caderno, que ligam para saber como foi o dia. Que nunca se esquecem do nosso aniversário. Gente que é feliz por si só e não nos permite derramar lágrimas. Que, apesar da distância, do tempo e da falta dele, sempre acabam ligando. Que mandam cartões de Natal e Ano Novo, mesmo não tendo contato nenhum nos últimos 365 dias. Gente que nos deixa indireta do bem pela internet. Esse tipo, encantador e impossível de passar batido pela nossa vida, que eu desejo ao meu lado. E ao teu. E de todos. Porque não há nada mais bonito do que se lembrar, bem lá na velhice, quem ficou marcado por simplesmente ter tão simples gestos.



